A Meituan, gigante chinesa do delivery que ensaia expansão internacional, inclusive no Brasil, projetou um prejuízo líquido anual para 2025, estimado entre 23,3 bilhões e 24,3 bilhões de yuans (US$ 3,2 a US$ 3,4 bilhões), devido à intensa competição de preços no setor de entrega de alimentos. Esse prejuízo previsto contrasta fortemente com o lucro de 35,8 bilhões de yuans obtido em 2024 e seria o maior da empresa desde 2021.
A luz amarela está ligada e será difícil ignorar. Nesse cenário, a agência Moody’s revisou a perspectiva de estável para negativa do rating de crédito, apontando incertezas crescentes na recuperação do negócio de entrega de alimentos diante da concorrência intensa.
Segundo a agência, a pressão sobre margens e a necessidade de investimentos mais altos devem manter a alavancagem elevada por mais tempo do que o previsto.
Os números recentes ajudam a explicar o alerta: a receita avançou 12% em 12 meses até setembro de 2025, ritmo menor que o crescimento superior a 20% dos anos anteriores, enquanto a margem EBITDA ajustada despencou para 2% (de 13% em 2024) devido ao aumento de subsídios e gastos promocionais — levando o segmento de delivery ao prejuízo desde o segundo trimestre de 2025.
Apesar disso, a Moody’s destaca que a empresa ainda tem posição robusta de caixa e liquidez elevada, fatores que sustentam a manutenção da nota de crédito.
Mesmo assim, o mercado reagiu mal: as ações em Hong Kong caíram ao menor nível intradiário desde março de 2024, com recuo de cerca de 5% na semana, refletindo a deterioração das expectativas financeiras.
Esse contexto torna mais desafiadora a aposta fora da China. A expansão internacional já era vista por analistas como uma estratégia capaz de gerar prejuízos bilionários anuais no início da operação, custo típico de quem precisa comprar participação em mercados dominados por concorrentes locais.
Com a ação em um dos piores momentos desde 2024 e a pressão competitiva comprimindo margens, a questão deixa de ser quando a Meituan crescerá no exterior — e passa a ser quanto capital terá para sustentar essa ambição.
No Brasil, onde a disputa exige subsídios pesados desde o primeiro dia, o sinal vindo de Hong Kong soa menos como ruído de curto prazo e mais como um teste real de resistência financeira.
Por aqui, através da Keeta, a empresa vivencia um momento de vulnerabilidade financeira, com a perda de 30% de valor. A empresa enfrenta ainda um mercado consolidado com concorrentes fortes, como iFood e 99Food, com o objetivo de recrutar 50 mil entregadores em 12 meses.
A narrativa de força absoluta da Meituan foi contestada pela competição de margens (preço baixo/subsídios) e mudança de comportamento do consumidor (uso de cupons via Douyin), o que minou sua lucratividade e tem provocado alta volatilidade no valor de suas ações, confirmando o cenário de “guerra de entregas” que impacta suas operações.

