Após mais de 25 anos de negociações, o acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia começa a projetar efeitos relevantes sobre a economia brasileira. Um estudo elaborado pela Central Brasileira do Setor de Serviços (Cebrasse), com base em estimativas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica que, embora o tratado tenha impacto direto principalmente sobre bens industriais e agropecuários, o setor de serviços tende a ser beneficiado por meio dos encadeamentos produtivos e do aumento da atividade econômica .
A análise considera projeções até 2040 e aponta que o valor da produção do setor de serviços no Brasil deve crescer, em média, 0,41% no período. Esse avanço ocorre de forma majoritariamente indireta, impulsionado pela intensificação do comércio exterior, dos investimentos e da integração produtiva entre os dois blocos econômicos .
O estudo da Cebrasse aprofunda os dados agregados do Ipea por meio de um modelo insumo-produto baseado na matriz de Leontief, metodologia que permite identificar os efeitos diretos e indiretos do acordo sobre diferentes segmentos da economia. Os resultados mostram que os impactos não serão homogêneos dentro do próprio setor de serviços, concentrando-se especialmente em atividades mais integradas às cadeias exportadoras e à logística internacional .
Entre os segmentos com maior potencial de crescimento estão transporte aquaviário, transporte terrestre de cargas, armazenagem, serviços auxiliares aos transportes, serviços empresariais especializados, consultorias, publicidade, engenharia e serviços jurídicos e contábeis. Atividades ligadas à tecnologia da informação, telecomunicações e produção cultural também apresentam variações positivas, ainda que mais moderadas .
Segundo o presidente da Cebrasse, João Diniz, o acordo tende a gerar ganhos e desafios distintos entre os setores econômicos. “Há áreas como agricultura, agronegócio e mineração que devem ser beneficiadas diretamente, o que gera efeitos indiretos positivos para várias atividades de serviços. Por outro lado, setores industriais como máquinas, fármacos e o segmento químico podem sofrer impactos negativos, refletindo também em partes do setor de serviços”, avalia.
De acordo com Diniz, alguns serviços devem registrar ganhos diretos com o acordo, especialmente aqueles ligados a transportes, logística, engenharia, consultorias e tecnologia da informação. “No geral, o acordo deve impactar mais significativamente esses segmentos, que funcionam como base de suporte para o comércio internacional e para os investimentos produtivos”, afirma.
O presidente da Cebrasse também destaca os efeitos positivos esperados sobre o turismo de negócios. “A intensificação das relações comerciais, das missões empresariais, feiras e eventos corporativos tende a impulsionar viagens, hotelaria e serviços de alimentação. O turismo de negócios deve ser um dos beneficiados indiretos desse movimento”, ressalta.
Em relação à indústria, Diniz pondera que o acordo amplia a concorrência em setores onde a União Europeia é altamente competitiva. “Indústrias farmacêuticas e químicas de países como Alemanha e França têm elevada competitividade, o que pode pressionar empresas brasileiras. Por outro lado, há setores industriais, como o de calçados, que tendem a ganhar espaço com o acordo”, observa.
Para a Cebrasse, os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas e estratégias empresariais diferenciadas. “Como todo acordo comercial, há segmentos que se beneficiam e outros que enfrentam maior dificuldade de adaptação. O desafio está em criar condições para que o setor de serviços, responsável pela maior parcela do emprego no país, consiga potencializar os ganhos e mitigar os impactos negativos”, conclui João Diniz.

