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Conjuntura, crise e empreendedorismo

Por Marcos Troyjo *

As principais características do empreendedorismo brasileiro são, felizmente, a criatividade – e, infelizmente, a baixa sustentabilidade de novos negócios.

Poucos povos são tão criativos, trabalham tão bem o tema da adaptação quanto o brasileiro. Por outro lado, os negócios no Brasil têm de deparar-se com a assustadora carga tributária, uma legislação trabalhista que inibe o empreendimento e um ambiente de negócios classificado pelo Relatório de Competitividade Global em que o Brasil ocupa a vexatória 87ª posição.

Baixo crescimento e inflação em ascensão agregam-se a esse quadro de dificuldades. Com a deterioração das perspectivas brasileiras, torna-se mais evidente a necessidade imperiosa das reformas microeconômicas.

Quando essas se concretizarem – e isto tem de ser feito em caráter de urgência – os empreendedores brasileiros estarão mais próximos de harmonizar sua capacidade de competir globalmente.

Uma “grande estratégia” de desenvolvimento passa por livrar o empreendedor brasileiro da “camisa-de-força” microeconômica dos tributos, das amarras trabalhistas e dessa burocracia hiperreguladora.

Também compreende movimentos mais amplos, como a diminuição da parcela ocupada por dispêndios do setor público, em benefício do aumento do investimento brasileiro em ciência & tecnologia como percentual de nosso PIB.

Para fazer esse omelete, é necessário quebrar alguns ovos no curto prazo; fazer sacrifícios. Não há exemplos internacionais de países que mudaram de paradigma e ascenderam na escala global de desenvolvimento sem sacrifício em nome de seu futuro.

Um país que, como o Brasil, poupa e investe menos de 20% de seu PIB claramente está tendo um caso de amor com o presente, e descuidando do caminho adiante.

É essencial reorientar esforços públicos para a educação fundamental e permitir às universidades maior interação com empresas, com o mundo do fazer. Se nossa atenção pública em educação continuar tão centrada no ensino superior, prolongaremos essa situação em que temos, como hoje, tantas dificuldades de transformar conhecimentos que emanam da universidade em produtos passíveis de gerar patentes e ser levados ao mercado. O efeito da aproximação universidade-empresa seria triplo.

Além do impacto positivo na universidade, as empresas também estariam mais encorajadas não apenas a destinar parcelas maiores de seus orçamentos corporativos à pesquisa & desenvolvimento.

Simplificaríamos também as estruturas governamentais brasileiras orientadas à gestão do ensino superior – que acabam por subtrair recursos das políticas públicas que poderiam ter maior foco nas camadas mais fundamentais e formativas das etapas educacionais.

O presente desalento com a economia brasileira pode ser um convite a mais inovação. Minha definição de empreendedorismo tem que ver com a tentativa de quebra de inércia, com o objetivo de gerar mudanças positivas, mediante atuação inovadora. E portanto dentro dessa definição cabe empreendedorismo empresarial ou também aquele que se realiza no interior de instituições governamentais ou entidades sem fins lucrativos.

No limite, o grande desafio brasileiro é realizar a transição de uma sociedade que é reconhecidamente criativa para uma sociedade que tem de ser tecnologicamente inovadora.

* Economista, professor do Ibmec e Diretor do BricLab da Columbia University

http://brasileconomico.ig.com.br/noticias/conjuntura-crise-e-empreendedorismo_131697.html

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