Um mês depois do início da crise, Simone Chieppe deixou de ser apenas uma integrante do Conselho para se tornar uma das figuras mais influentes na nova configuração do Fundo Apex. E a mudança chama atenção porque Simone atravessa os dois lados da história.
Ela integrava havia anos a governança que acompanhava a companhia antes da crise. Agora, aparece com protagonismo justamente na estrutura encarregada de administrar suas consequências.
Enquanto isso, parceiros e investidores relatam uma situação desconfortável: sócios do partnership demonstram, em conversas, disposição para negociar, preservar negócios e encontrar soluções. Quando chega a hora de executar, porém, as decisões não necessariamente avançam. O caminho termina, segundo esses relatos, no Comitê de Crise.
A pergunta inevitável é: se os próprios sócios estão dispostos a resolver, quem está impedindo que as soluções avancem?
De conselheira a protagonista
A posição de Simone merece atenção também pelo passado. Se ela integrava o Conselho durante o período hoje colocado sob escrutínio, é legítimo perguntar quais informações recebia, quais assuntos eram submetidos ao colegiado e como exercia sua função de fiscalização.
Eventuais operações realizadas por Simone ou partes relacionadas com a tesouraria, se comprovadas, acrescentariam outro elemento a essa análise. Não seriam evidência automática de irregularidade, mas ajudariam a esclarecer o grau de interação entre integrantes da governança e as atividades financeiras da companhia.
Agora, Simone aparece do outro lado da mesa: participando da condução da resposta a uma crise ocorrida durante um período em que já integrava a governança. Há ainda outra particularidade. Seu marido, o advogado José Carlos Stein Júnior, aparece formalmente representando o Apex Partners Gestão de Ativos e ABM Partnership no processo cautelar.
A combinação não prova conflito ou irregularidade. Mas torna especialmente importante esclarecer quem decidiu a composição do Comitê de Crise, quem define a estratégia, quais poderes cada integrante possui e quem fiscaliza quem hoje conduz a apuração.
A Justiça aumenta a cobrança
O Judiciário, enquanto isso, caminha na direção de maior transparência. Na decisão de 31 de agosto, o juiz determinou a individualização das operações, exigindo origem, destino, data, causa econômica e documentação comprobatória. O magistrado também reconheceu expressamente aos investidores minoritários o direito de fiscalizar, questionar e apontar eventuais irregularidades.
A mesma transparência deveria permitir entender como funciona a governança criada para administrar a crise. Porque existe uma diferença importante entre administrar uma crise e controlar as decisões sobre como ela será resolvida.
Se parceiros, investidores e até integrantes do partnership discutem soluções que depois não avançam, o problema deixa de ser apenas financeiro. Torna-se também uma questão de governança. Um mês depois, Simone Chieppe ganhou protagonismo no Apex.
Resta saber se esse protagonismo está acelerando a recuperação da companhia — ou se a concentração das decisões ao redor da nova estrutura está tornando sua solução mais difícil.

